domingo, 16 de junho de 2019. 06:55
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Paulo Portinho escreve texto sobre Bolsonaro

2019-05-20 10:05:00, Por: Sergio Marcos

Foto: Paulo Portinho

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Um ex-candidato a vereador pelo Novo-RJ, que em 2018 escolheu o colega de partido João Amoêdo no primeiro turno e preferiu anular seu voto a optar entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) no segundo, disse ser o autor do texto compartilhado pelo presidente nesta sexta-feira (17).

Distribuída por Bolsonaro em grupos de WhatsApp, a mensagem sustenta que o mandatário com cinco meses no cargo estaria sofrendo pressão por não ceder a "conchavos" de corporações, o que estaria tornando o Brasil "ingovernável".

Paulo Portinho, 46, afirmou à Folha de S.Paulo que o texto é seu -e se diz "realmente assustado" com a repercussão dele. "Tô torcendo para que acabe hoje à noite, com o próximo tema."

"Já disseram que eu escrevi a carta de renúncia do Bolsonaro, que sou da CIA, que sou aluno do Olavo [de Carvalho]", afirma e ri ao mencionar o escritor que virou guru da ala ideológica do governo Bolsonaro.

Confira o texto:

Temos muito para agradecer a Bolsonaro.

Bastaram 5 meses de um governo atípico, "sem jeito" com o congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.

Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal "presidencialismo de coalizão", o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento. As lagostas do STF e os espumantes com quatro prêmios internacionais são só a face gourmet do nosso absolutismo orçamentário.

Todos nós sabíamos disso, mas queríamos acreditar que era só um efeito de determinado governo corrupto ou cooptado. Na próxima eleição, tudo poderia mudar. Infelizmente não era isso, não era pontual. Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.

Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto.

Nem uma simples redução do número de ministérios pode ser feita. Corremos o risco de uma MP caducar e o Brasil ser OBRIGADO a ter 29 ministérios e voltar para a estrutura do Temer.

Isso é do interesse de quem? Qual é o propósito de o congresso ter que aprovar a estrutura do executivo, que é exclusivamente do interesse operacional deste último, além de ser promessa de campanha?

Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos. Historinha com mais de 500 anos por aqui.

Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no congresso e na justiça, apostaria que o presidente não serve para NADA, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa.

Se não negocia com o congresso, é amador e não sabe fazer política. Se negocia, sucumbiu à velha política. O que resta, se 100% dos caminhos estão errados na visão dos "ana(lfabe)listas políticos"?

A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios.

O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim.

Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas.

Era falso, FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos.

Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.

Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações. Que sempre venceram. Daremos adeus Moro, Mansueto e Guedes. Estão atrapalhando as corporações, não terão lugar por muito tempo.

Na pior hipótese ficamos ingovernáveis e os agentes econômicos, internos e externos, desistem do Brasil. Teremos um orçamento destruído, aumentando o desemprego, a inflação e com calotes generalizados. Perfeitamente plausível. Claramente possível.

A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível. É o Brasil sendo zerado, sem direito para ninguém e sem dinheiro para nada. Não se sabe como será reconstruído. Não é impossível, basta olhar para a Argentina e para a Venezuela. A economia destes países não é funcional. Podemos chegar lá, está longe de ser impossível.

Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem.

O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. Bolsonaro não é culpado pela disfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou. Ele é só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso.

Infelizmente o diagnóstico racional é claro: "Sell".

Professor de finanças, escritor de livros na área e funcionário na CVM (Comissão de Valores Imobiliários), Portinho conta que foi avisado por um amigo que o líder da nação havia divulgado seus escritos, que classificou como "um texto de rede social de quem vê que as coisas estão andando e tenta entender". Publicou-o no sábado (11), em seu Facebook, e diz que não tem ideia de como ele foi parar no WhatsApp presidencial.

Ele afirma ter "zero relação com o governo" e ser um liberal, fiador de ideias que casam mais com o ministro da Economia, Paulo Guedes, do que com membros da chamada ala olavista do governo. "Sou só uma pessoa que defende algo um pouquinho mais liberal."

Portinho diz esperar que sua vida "não mude por conta disso" e preferiu não opinar sobre os rumos do bolsonarismo. "Estão achando que sou analista político. Não sou."

Não é, mas tem um blog no qual, até 2018, dava seus pitacos sobre temas dessa seara. O último post, de setembro, questiona no título: "Por que as pessoas acham que o nazismo é de esquerda?".

Spoiler: Portinho refuta que ele seja de direita e diz que "maldade não tem ideologia". 

Sobre seu país natal, ele diz à reportagem: "A única coisa que falo é que minha esperança no Brasil é a de que os três Poderes atinjam seu grau máximo de racionalidade. Não adianta esperar que todo mundo se abrace, seja amigo. Mas o Judiciário tem condição de ajudar, o Legislativo, o Executivo."

Em sua tentativa de entrar na política, três anos trás, naufragou: teve 602 votos para a Câmara dos Vereadores carioca, 0,02% do total.

CTR Craíbas